Você sabe o que é intersexualidade?

Hey!

Demorei um bocado para decidir o título desse post, mas optei por esse, pois eu sei que, assim como eu antes da leitura do livro, não sabia exatamente o que significava esse termo ou usavam o antigo – que hoje foi abolido. Hoje eu vou falar de um livro incrível e de uma das histórias mais originais que já li: Menino de Ouro da escritora inglesa Abigail Tarttelin.

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“Crescer já é devastador o suficiente sem que isso aconteça antes do que se espera” página 374

Max Walker é um menino de ouro: bom filho, aluno aplicado, exímio jogador de futebol, famoso com as meninas, bom irmão, gentil, educado e bonito. Entretanto, Max tem um segredo que o torna diferente dos outros; ele é intersexual ou seja, ele possui tanto a genitália masculina quanto a feminina (o antigo termo usado era hermafrodita).

Quando nasceu, seus pais acabaram optando por não fazer a cirurgia que corrigiria o “problema” de Max, pois temiam que o sexo que eles escolhessem acabasse não agradando-o quando crescesse, trazendo problemas. Max acabou se identificando com o gênero masculino e assim foi criado, mesmo ainda tendo uma vagina e ovários. O garoto não possuía problemas consigo e sempre se aceitou bem, até um chocante (!!!) acontecimento (do qual não posso contar aqui, porque seria spoiler) que faz com que ele passe a se questionar.

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“Seria outro lance de sexualidade/gênero que ia deixar as pessoas enojadas, não adianta perguntar por que algumas questões de sexualidade e gênero deixam as pessoas enojadas, não adianta botar a culpa na sociedade e afirmar que ela precisa mudar, porque nada vai mudar na escola, nem as vadias que fazem fofoca, nem os caras que ficam apavoradas achando que rapazes como Samuel querem transar com todo o time de futebol. Nada vai mudar na minha escola no próximo ano e vai fazer com que esteja tudo ok para as pessoas que sabem a verdade sobre mim. Nada mudaria o fato de que se elas soubessem sobre mim parariam de falar comigo ou se sentiriam… enojadas.” Max – página 138

Com seus 22 aninhos, a inglesa Abigail Tarttelin traz uma história arrebatadora com um tema que, pelo menos eu, nunca vi em nenhum dos livros que já li. A história é dividida em seis pontos de vista e lá para a metade do livro tem o acréscimo de mais um; conhecemos a vida de Max de forma mais abrangente através dos olhos do próprio garoto, do seu irmão de 9 anos, da mãe, da colega da escola e da médica. Mesmo com todas essas visões diferentes, o livro em momento algum se torna confuso e a forma que cada personagem narra reflete a personalidade do mesmo, fazendo com que nós a reconheçamos rapidamente.

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“Você precisa de coragem para fazer qualquer coisa. A mesma coragem que precisa para ter que fazer um teste ou fazer escolhas ou escrever um poema quando o último que fez ficou uma merda, é a mesma coisa que sair à noite sem ficar apavorado. Se tiver medo, você nunca vai viver. Você precisa de coragem para viver.”

Sylvie – página 29

A autora foi realmente corajosa ao colocar um acontecimento tão chocante logo no início do livro (a tal cena acontece a partir da página 21), pois isso poderia espantar os leitores, mas foi escrito de tal maneira que fez apenas com que eu quisesse mergulhar ainda mais – não sem antes pausar a leitura para absorver o choque. O mais legal disso tudo é que a autora não esfria e continua ousando no resto do livro (cujo qual é dividido em 3 partes e cada uma adiciona algum acontecimento novo).

A forma como Max fica dividido entre a linha tênue de ser “o garoto perfeito que todo mundo conhece” e o que ele realmente sente, os seus medos, os seus questionamentos tudo isso unido a falta de conhecimento sobre a sua própria condição (e tem o tal fucking acontecimento que traz uma sequela grave!). Como se isso não fosse o bastante, o livro vai ganhando novas camadas conforme a leitura avança deixando tudo cada vez mais denso e melancólico. Os pensamentos de Max são tratados de forma crua e temos acesso a sua cabeça de forma genial, sem ocultar nada (aliás isso acontece com todos os personagens narradores, tornando-os extremamente humanos e acessíveis).

“Enquanto a gente cresce, acredita que os amigos que tem são pessoas boas, acredita que os pais estão sempre certos, acredita que a gente vai saber o que fazer quando chegarem os tempos difíceis, vai conseguir enfrentar tudo, vai ser o herói […] Mas aí as coisas ruins acontecem, e todo mundo decepciona todo mundo. E a gente percebe que os velhos amigos podem ser pessoas más. Que a sua mãe e o seu pai não podem consertar tudo. Que não somos os heróis que pensávamos ser. Que apenas não tínhamos ainda nada de muito difícil com que lidar, então não sabíamos que éramos covardes. Que éramos muito fracos.” Max – página 341

O livro não é apenas uma reflexão sobre a intersexualidade, mas também sobre a família, o papel dos pais, a juventude e até sobre a postura médica diante de algumas situações. Isso ainda me fez pensar no quão difícil deve ser nascer sem saber exatamente se é menino ou menina, estando dividido entre duas possibilidades diferentes e o pior de tudo, o medo de que as pessoas saibam e julguem.

Enfim, um livro único e especial, bem escrito e do qual é impossível ler sem soltar algumas lágrimas; não consegui parar de ler até terminá-lo e pretendo reler em breve. Fica a dica para vocês de uma leitura fascinante que explora algo nunca explorado na literatura antes.

“Todos lidam com as coisas do modo como foram ensinados” página 306

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Beijo do mágico e volte sempre!

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Publicado por

Bruno M. Foster

Leitor assíduo. Pianista em formação. Aspirante a escritor. Compositor. Apaixonado pelas artes. Fã incondicional de Damien Rice, Amy Lee, Fiona Apple, Lana Del Rey, Gerard Way e Regina Spektor. Idolatra Edgar Allan Poe, George R. R. Martin, Stephen King, William Shakespeare, Arthur Rimbauld, J.K Rowling, Charles Dickens, Jonathan Safran Foer, Álvares de Azevedo, Clarice Lispector, Ernesto Sabato, George Orwell e etc... Comum. Um tanto tímido, mas tentando quebrar alguns muros. Está sempre procurando inspiração nos mais improváveis lugares, desde alguém interessante na rua à uma árvore que parece solitária em uma praça. Superando o negativismo. Aprendendo a não se concentrar no lado ruim do ser humano e passar a observar as coisas boas. Cinéfilo iniciante. Sonha em ser escritor, cantor e dividir os mundos existentes em sua cabeça com as pessoas. Usa o blog para tentar encontrar pessoas com os gostos parecidos ao dele.

2 comentários em “Você sabe o que é intersexualidade?”

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