“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

Hey!

Estou aqui para falar de um livro que… me deixou boquiaberto, simplesmente. “Ensaio Sobre a Cegueira” é o livro incrível do autor português e ganhador do Nobel de Literatura, José Saramago!

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Um homem está dentro do seu carro, esperando o farol abrir quando, de repente, fica cego; não uma cegueira comum, mas uma branca, como se estivesse mergulhado em um mar de leite. O homem, guiado por um bom samaritano, é levado para casa. O bom samaritano rouba o carro do homem – também chamado de “primeiro cego”. O bom samaritano, que agora se tornou apenas “o ladrão”, também cega e aos poucos, várias pessoas são assoladas pelo mal que o governo batizou de “treva branca”.

“…No fim das contas, estas ou outras, não é assim tão grande a diferença entre ajudar um cego para depois o roubar e cuidar de uma velhice caduca e tatibitate com o olho posto na herança”

Um oftalmologista volta para casa intrigado, pois acabara de examinar um homem que diz ter sido afetado por uma cegueira repentina, apesar dos inúmeros exames, nada de errado foi encontrado em seus olhos; poucas horas depois o oftalmologista se vê afogado em um mar branco. Pela manhã, o tormento da “treva branca” já assombra o governo e o faz tomar uma medida drástica: apanhar todos os cegos e colocá-los em quarentena em um antigo manicômio abandonado, na tentativa de isolar a doença desconhecida. Batem a porta para levar o médico, sua esposa se recusa a deixá-lo sozinho e o acompanha, mas há algo estranho, ela é a única que não é afetada pela doença.

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Cena da adaptação de 2007 “Blindness” dirigido por Fernando Meirelles

Cruel.

Humano.

Cruelmente humano.

Saramago nos transporta para uma experiência única, pois o modo que ele escolheu para fazer narrativa, também faz o leitor se sentir cego e perdido como os personagens: ninguém tem nome, todos são reconhecidos apenas como “a mulher de óculos escuros”, “a mulher do oftalmologista”, “o oftalmologista”, “o menino estrábico”, “o primeiro cego”, “o ladrão” e etc. Além disso, o autor não separa as falas da narrativa, deixando tudo misturado e fazendo com que a gente se sinta tão confuso quanto os personagens – tudo feito propositalmente e no começo é um pouco difícil, mas depois você se acostuma.

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Julianne Moore como a “Mulher do Oftalmologista” e logo atrás, Mark Ruffalo como “O Oftalmologista”

“[…] meu Deus, a falta que os olhos nos fazem, ver, ver, ainda que não fosse mais que umas vagas sombras, estar diante de um espelho, olhar uma mancha escura e difusa e poder dizer, Ali está a minha cara, o que tiver luz não me pertence”

Os personagens são palpáveis, extremamente humanos e mesmo aqueles que seguem caminhos controversos para a sociedade, são apresentados de uma forma única, mostrando que não é apenas aquilo, há algo mais por baixo de toda aquela figura. Um exemplo é o da “mulher de óculos escuros” que é prostituta e uma das personagens mais interessantes do livro e a mais fácil de simpatizar logo de cara. A mulher do oftalmologista também se torna uma personagem incrível, pois é a única diante de todo aquele pandemônio que consegue enxergar, porém, seguindo o conselho de seu marido, acaba não contando pra ninguém, pois isso poderia causar revolta e até a obrigação dela de servir todas as 300 pessoas encarceradas naquele lugar que é quase um mausoléu; então, ela se vê obrigada a visualizar todo aquele ambiente repugnante ao qual foram atirados, deparando-se o quanto o ser humano pode chegar ao fundo do poço e que não importa se você é rico ou pobre, se suas roupas são caras ou não, em situações extremas, nos tornamos o mesmo bicho que luta pela sobrevivência.

“Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais. Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí o prazer que pode.”

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Alice Braga como “A mulher dos óculos escuros”

Posso até fazer um monólogo aqui se quiser, mas não vai suprir a experiência única que é ler este livro. Saramago consegue trabalhar com o ser humano e suas diferenças, de forma única. Há cenas fortíssimas, onde eu precisei parar e respirar antes de continuar – ou até fechar o livro e continuar depois -, cenas revoltantes (um exemplo são os guardas, que também estão com medo do destino inevitável e então, acabam se tornando violentos com os cegos, atirando em qualquer um que ouse se aproximar das grades); ainda há outra cena muito revoltante, porém, essa eu não vou citar aqui porque seria spoiler. Entretanto, há também cenas belíssimas, simples, mas lindas; como a do “cachorro das lágrimas” ou a das três mulheres se lavando com água da chuva, a da velha solitária em seu apartamento, o diálogo belíssimo entre a mulher de óculos escuros e o homem da venda preta e uma das que mais me comoveu, a que eles choram ao beber água limpa pela primeira vez depois de tanto tempo.

“[…]Sim, como foi que não me lembrei, um garrafão que estava em meio e outro que nem encetado estava, oh que alegria, não bebas, não bebas mais, isto dizia-o ao rapaz, vamos todos beber água pura […] Bebamos. […] Quando os copos foram pousados, a rapariga de óculos escuros e o velho da venda preta estavam a chorar”

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Outra cena bem significativa:

“Sentiu-se infeliz, desgraçado a mais não poder, ali com as pernas arqueadas, amparando as calças que roçavam no chão nojento, cego, cego, cego, e, sem poder dominar-se, começou a chorar silenciosamente. […] Há muitas maneiras de tornar-se um animal, pensou, esta é só a primeira delas.”

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Enfim, é um livro denso e pesado, não recomendo ler se você estiver passando por um momento ruim, entretanto, a história nos trás tantas reflexões que ao terminar, nos sentimos uma outra pessoa. Um homem ou mulher, com uma nova visão sobre o mundo, sobre como as coisas seriam se cada um estivesse por si só navegando na escuridão infindável. Recomendadíssimo! José Saramago era um gênio da literatura e merece ser celebrado como tal.

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Um pequeno adendo: o livro está em português de Portugal, então, no começo vai parecer um tanto estranho, mas não é nenhum bicho de sete cabeças e da para ler tranquilamente. E outra coisa, o filme também é muito bom!

É isso por hoje, queridos!

Beijo do Mágico e Volte Sempre!

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Publicado por

Bruno M. Foster

Leitor assíduo. Pianista em formação. Aspirante a escritor. Compositor. Apaixonado pelas artes. Fã incondicional de Damien Rice, Amy Lee, Fiona Apple, Lana Del Rey, Gerard Way e Regina Spektor. Idolatra Edgar Allan Poe, George R. R. Martin, Stephen King, William Shakespeare, Arthur Rimbauld, J.K Rowling, Charles Dickens, Jonathan Safran Foer, Álvares de Azevedo, Clarice Lispector, Ernesto Sabato, George Orwell e etc... Comum. Um tanto tímido, mas tentando quebrar alguns muros. Está sempre procurando inspiração nos mais improváveis lugares, desde alguém interessante na rua à uma árvore que parece solitária em uma praça. Superando o negativismo. Aprendendo a não se concentrar no lado ruim do ser humano e passar a observar as coisas boas. Cinéfilo iniciante. Sonha em ser escritor, cantor e dividir os mundos existentes em sua cabeça com as pessoas. Usa o blog para tentar encontrar pessoas com os gostos parecidos ao dele.

2 comentários em ““Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara””

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