Ultraviolência Horrorshow!

Digo-lhes, Ó, meus irmãos, sobre um livro que foi como um toltchok contra a minha gúliver. Caros druguis, peço-lhes que peguem suas taças de moloko velocet e a degustem, pois é com grande radóstia que lhes apresento a minha resenha de Laranja Mecânica do escritor Anthony Burgess.

Hey! Incorporei totalmente o nadsat nessa introdução xD

Um breve aviso antes de começar: todo trecho que eu postar que tiver palavras em nadsat eu vou colocar o significado entre parênteses!

É isso, vamos lá, queridos druguis e espero que a resenha seja bem horrorshow…

Imagem

Alex tem quinze anos.

Apenas quinze anos, veja só!

E aos quinze anos, Alex é líder de uma gangue. Trajando roupas peculiares, o vocabulário impregnado pelo nadsat (palavras criadas pelo autor que mistura gírias inglesas com russo), o vício no moloko velocet ou leite-com (bebida à base de leite, misturada com bebidas alcoólicas e drogas) e adeptos da boa e velha ultraviolência. Junto com os seus druguis (companheiros/ parceiros) Alex espalha o terror por uma Nova Iorque bem diferente e amedrontada pela violência; entre os seus passatempos estão o roubo, a curiosa paixão por espancar pessoas diferentes na rua, invasão de casas e estupros.

Imagem

Alex interpretado por Malcolm McDowell na adaptação de 1970

Tudo muda para Alex quando um dia, após invadir a casa de uma senhora, ele acaba a matando e em seguida, é abandonado pelos seus comparsas que o amarram e deixam-no para trás. E é então que aos quinze anos, Alex é condenado a quatorze anos na prisão.

Só que dois anos mais tarde, ele acaba sendo escolhido como cobaia para uma nova experiência que promete retirar a violência dos criminosos e torná-los cidadãos de bem que seguem as leis e é após uma longa e dolorosa experiência que Alex é dado como “curado” e lançado na sociedade novamente, o único problema, é que os efeitos da experiência o tornam incapacitado de ter qualquer pensamento ou reagir com quesitos de violência, tornando-o forçadamente pacífico. Entretanto, o mundo lá fora não ficou menos cruel…

Imagem

O primeiro contato com Laranja Mecânica foi estranho, como mergulhar em águas desconhecidas que são mais profundas do que você imaginava; alguns passos e você já está submerso em um mundo estranho. As gírias usadas por Alex me confundiram bastante no começo, mas seguindo as dicas do próprio autor, li sem olhar o vocabulário no fim do livro; Anthony Burgess queria que o leitor sentisse a estranheza à primeira submersão no mundo que ele criou – não é tão futurista quanto o filme do Kubrick – e sim mostra o lado sombrio, um lugar mergulhado em uma penumbra de crimes e medo, com as pessoas evitando sair na rua à noite. O romance apesar de ter sido publicado em 1962 ainda se encaixa nos dias atuais e creio que será sempre atemporal, pois mesmo hoje em dia, também vivemos em um mundo violento e também sentimos um frio na barriga ao sairmos de nossas casas, porque sabemos que tudo pode acontecer – se em nossas próprias casas não estamos 100% seguros, imagina lá fora? Isso é mostrado no livro, apesar de não ser o foco do autor.

“O dia era muito diferente da noite. A noite pertencia a mim e a meus druguis (companheiros/amigos/comparsas) e a todo o resto dos nadsats (adolescentes), e os burgueses starres (velhos) espreitavam dentro de suas casas, bebendo de transmissões mundiais glupis (burro/imbecil)

Imagem

O que eu mais gostei no livro é que a forma que Alex nos conduz é como se estivéssemos sentados com ele conversando, o modo que ele se dirige ao leitor nos deixa mais próximos do personagem e essa aproximação com o personagem nos causa uma sensação ambígua, pois apesar de simpatizarmos com o personagem, assim que nos deparamos com as coisas que ele faz, temos um conflito interno. Alex não é uma pessoa boa, ele é cruel e sádico, mas ao mesmo tempo é incrivelmente cativante.

“Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem” Chapelão da Prisão

Quando ele é exposto ao tratamento para “tirar a maldade dele”, nos sentimos mal por ele, já que o tratamento de aversão é extremamente doloroso. E em seguida, vemos um Alex diferente, veja bem, ele só se tornou “bom” por que fora obrigado, já que sempre que tem algum impulso violento, ele sente fortes dores e náuseas; apesar disso, ele não mudou, por dentro ele continua tendo os seus desejos violentos, ele ainda é cruel, só que agora não pode fazer nada. E é aí que toda a questão do livre-arbítrio é tratada, o ser humano deve ter o poder de escolha entre o bem e o mal, entre o certo e o errado e sim, terá as consequências e ele terá que lidar com isso. Nada imposto a alguém é sincero. Esse tratamento é apenas um placebo, criando a sensação de que a sociedade está protegida, entretanto, o que fizeram foi apenas criar um ser mecânico, morto e esse tratamento não é infalível, então, a partir do momento que isso for revertido, as cobaias ainda serão pessoas ruins.

Imagem

“Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas dos dedos dos pés sobre qual é a causa da maldade é que me torna um maltchik (garoto) risonho. Eles não procuram saber qual é a causa da bondade, então por que ir à outra loja? Se os plebeus são bons é porque eles gostam, e eu jamais iria interferir com seus prazeres, e o mesmo vale para a outra loja. E eu frequento a outra loja. E mais: maldade vem de dentro, do eu, de mim ou de você totalmente odinokis (sozinhos), e esse eu é criado pelo velho Bog ou Deus, e é seu grande orgulho e radóstia (alegria). Mas o não eu não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu. E não é a nossa história moderna, meus irmãos, a história de bravos eus malenks (pequeno) combatendo essas grandes máquinas? Estou falando sério sobre isso com vocês, irmãos. Mas eu faço o que faço porque gosto de fazer”

Concluindo: todos devem ter o direito de escolher e depois lidar com as consequências; tudo que é imposto, transforma a pessoa apenas em um bicho circense com medo da chibata. Ensinar alguém a ser violento com violência é tão arbitrário quanto ensinar alguém que é errado roubar, roubando-a. A maldade é sim uma escolha, assim como a bondade, mas não significa que através de métodos não incisivos, não possamos ensinar qual o melhor caminho a se seguir; e mesmo que alguém tenha escolhido o caminho errado, ela pode, mais tarde, mostrar o desejo de se redimir (veja bem que, mesmo alguém que cometeu atrocidades, pode se arrepender mais tarde, se os outros irão perdoá-lo ou não, isso já é outra história que não se encaixa aqui).

“Ele não tem nenhuma escolha, tem? A preocupação consigo mesmo, o medo da dor física, o levaram a esse ato grotesco de auto depreciação. Sua insinceridade estava clara. Ele deixa de ser um malfeitor. Ele também deixa de ser uma criatura capaz de escolha moral.”

Imagem

O autor também faz um comentário interessante no seu ensaio A Condição Mecânica escrito em 1973:

“O que tentei argumentar, com o livro, era o fato de que é melhor ser mau a partir do próprio livre-arbítrio do que ser bom por meio de uma lavagem cerebral científica. Quando Alex tem o poder da escolha, opta apenas por violência. Entretanto, existem outras áreas de escolha, como ilustra seu amor pela música. Na edição inglesa do livro (mas não na norte-americana, tampouco no filme), há um epílogo que mostra Alex crescendo, aprendendo a desgostar de seu antigo estilo de vida, pensando no amor como algo maior do que uma forma de manifestar violência; até mesmo imaginando-se como marido e pai. Tal caminho sempre esteve aberto; ele, enfim, opta por segui-lo. Antes uma laranja podre, ele agora se preenche com algo mais próximo da doçura humana decente.”

Laranja Mecânica é uma história com mais a oferecer do que parece e super indicado; como disse anteriormente, o linguajar pode causar estranheza no começo, mas depois você se acostuma e mesmo sem olhar o vocabulário no final do livro, você consegue descobrir o significado das palavras apenas pelo contexto. Alex é um personagem muito bem construído e deliciosamente complexo e Anthony Burguess é um escritor incrível. O filme dirigido por Stanley Kubrick também é incrível e a atuação de Malcolm McDowell como Alex está impecável, senti falta apenas de duas cenas no filme, mas não é nada que atrapalhe.

Imagem

Foto tirada durante a filmagem do filme

Por hoje é só pessoal!

Um beijo do Mágico e volte sempre!

Imagem

Anúncios

Publicado por

Bruno M. Foster

Leitor assíduo. Pianista em formação. Aspirante a escritor. Compositor. Apaixonado pelas artes. Fã incondicional de Damien Rice, Amy Lee, Fiona Apple, Lana Del Rey, Gerard Way e Regina Spektor. Idolatra Edgar Allan Poe, George R. R. Martin, Stephen King, William Shakespeare, Arthur Rimbauld, J.K Rowling, Charles Dickens, Jonathan Safran Foer, Álvares de Azevedo, Clarice Lispector, Ernesto Sabato, George Orwell e etc... Comum. Um tanto tímido, mas tentando quebrar alguns muros. Está sempre procurando inspiração nos mais improváveis lugares, desde alguém interessante na rua à uma árvore que parece solitária em uma praça. Superando o negativismo. Aprendendo a não se concentrar no lado ruim do ser humano e passar a observar as coisas boas. Cinéfilo iniciante. Sonha em ser escritor, cantor e dividir os mundos existentes em sua cabeça com as pessoas. Usa o blog para tentar encontrar pessoas com os gostos parecidos ao dele.

4 comentários em “Ultraviolência Horrorshow!”

Comente e deixe o Mágico feliz!!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s