Sobre virtudes, visões distorcidas e O Mercador de Veneza nisso tudo…

Bitch, I’m soooo back!

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    Ah, vocês não fazem ideia do quanto eu senti falta de escrever sobre os livros que andei lendo nesses últimos anos. Sei que com o sumiço parece que eu me esqueci completamente desse mundo alternativo dentro do meu chapéu, mas a verdade é que sempre pensava em voltar a escrever aqui e acabava desistindo por alguma intervenção da vida adulta. Well, comecei esse blog aos 18 aninhos e agora, nesse momento que eu escrevo, estou beirando aos 24 (Ó céus, ó vida). Ok, ok, ok… Sei que está se perguntando o que isso tem a ver com o título ou com O Mercador de Veneza de William Shakespeare e a verdade é que não tem nada a ver, apenas senti uma vontade gigantesca de me justificar (talvez isso não seja das maiores honrarias, but who cares?). Está bem, não precisa me apressar. Agora vamos ao que interessa, shall we?

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    O Mercador de Veneza é uma peça escrita por William Shakespeare por volta de 1596/1598 (não se sabe ao certo). Conta a história de Bassanio que, certo dia, resolve pedir uma ajuda financeira ao seu melhor amigo, Antonio, para poder fazer uma viagem à fim de conquistar uma moça rica e solteira chamada Portia. Seu amigo diz que o faria de bom grado, mas no momento não possui o dinheiro, já que todos os seus navios ainda estão no mar com suas mercadorias; contudo, ele diz à Bassanio que caso ele consiga um fiador, poderá deixar a dívida em seu nome.

    É assim que o rapaz vai atrás de Shylock, um judeu carrancudo e rico. De início, ele fica relutante em ajudar Bassanio e só muda de ideia ao descobrir no nome de quem a dívida será deixada. Descobrimos então que há uma rixa antiga entre Antonio e Shylock e que ambos se detestam mutualmente (sendo que Antonio se refere à ele como um “misbeliever, cut-throat, dog”). Com isso, o judeu decide que não quer dinheiro como pagamento, mas sim um punhado da carne de seu arqui-inimigo. O problema é que depois ficamos sabendo que os navios de Antonio desapareceram no mar, ou seja, ele terá que pagar essa dívida.

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Shylock representado em uma pintura; artista desconhecido.

    Antes de ir para as reflexões, é necessário falar também de alguns outros personagens. Portia é uma moça rica recém-orfã cujo pai acabou deixando o seu destino à sorte. Ela não poderá casar com quem bem entender, de fato, a chance de casar com ela se esconde em um dos três baús deixados por ele. Um de ouro, um de prata e um de estanho e o cavalheiro que escolher o correto poderá então, se tornar marido da jovem donzela. Dois homens já passaram pelo seu castelo e ambos escolheram o errado. Ao desabafar com sua noviça, Nerissa, ela se recorda de Bassanio e torce para que o rapaz apareça logo e escolha o baú correto, libertando-a de seu infortúnio.

“I hold the world but as the world, Gratiano, A stage where every man must play a part, And mine a sad one.” – Antonio

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Portia e Bassanio representados em um quadro pelo pintor Henry Peters Gray (1819-1877)

   Ao iniciar a leitura, confesso que levei um susto tremendo ao ver a forma que Shylock estava sendo representado e todo o antissemitismo por trás da sua figura que engloba todos os estereótipos judeus em um só personagem. Isso acabou me causando um pouco de desconforto e um olhar torto para o Shakespeare (e olha que essa foi a sétima peça dele que eu li). Acabei então pesquisando mais sobre a época em que a peça foi escrita e descobri que durante o renascimento houve um crescimento do ódio contra os judeus na Inglaterra devido ao fato de que um médico judeu, chamado Roderigo Lopez, fora acusado de conspirar com os espanhóis para envenenar a rainha Elizabeth I em 1594. A própria rainha tinha dúvidas da culpabilidade do médico e tentou adiar o julgamento, mas no fim, ele foi declarado culpado (durante o julgamento, disse amar a rainha e que tinha se convertido ao cristianismo, mas isso foi recebido com risos) e acabou enforcado e esquartejado em julho do mesmo ano. Com toda essa história estando fresca na mente do povo, historiadores defendem que Shylock foi criado inspirado em Roderigo.

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Rainha Elizabeth I – pintor desconhecido

   De início, podemos acreditar que é uma história falando sobre os valores cristãos acima dos demais, já que algo que é muito criticado em Shylock é o fato dele ter o dinheiro e seus bens acima de tudo e não conseguir perdoar Antonio – querendo o punhado de carne de qualquer forma, mesmo quando o dobro da quantia que ele emprestou lhe é oferecido. Como disse, se não lermos com atenção, podemos pensar que o texto inteiro é um ataque aos judeus, contudo, temos a seguinte fala de Shylock que faz com que a teoria falhe:

“SALARINO — Ora, tenho certeza de que se ele não a resgatar no prazo certo, não haverás de tirar-lhe a carne, pois não? Para que te serviria ela?

SHYLOCK — Para isca de peixe. Se não servir para alimentar coisa alguma, servirá para alimentar minha vingança. Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.”

   Sabemos que a vingança não é uma virtude e, na verdade, é extremamente prejudicial em sua capacidade de cegar os nossos olhos e nos colocar em situações destrutivas. Contudo, em nossa condição humana, estamos sempre entregues aos nossos sentimentos, sejam eles bons ou ruins. E com toda humilhação sofrida por Shylock, não podemos compreender sua raiva? tumblr_m0ljr6kRwY1qhwgkao1_250 Antonio nunca escondeu o desprezo que tinha por ele (“misbeliever, cut-throat, dog” é como ele se refere ao judeu). Não digo que o personagem de Shylock não tenha defeitos, até porque ele se permite cegar pela vingança e a vontade de destruir, mas compreendendo os seus motivos, é possível simpatizar mais com a sua figura. Aliás, por muitos anos ele foi interpretado como um tipo de demônio ou palhaço e só a partir de uma montagem feita no século XIX que ganhou mais profundidade onde foi interpretado por um ator chamado Edmund Keen.

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Pintura retratando a cena do julgamento

   Se a peça de Shakespeare fosse apenas uma forma dele enaltecer os valores cristãos, ele também não teria feito os outros personagens com tantos defeitos. Bassanio só se interessa por Portia por causa de sua fortuna, a moça por sua vez, julga o príncipe de Marrocos pela cor de sua pele. Antonio que talvez seria o herói completo, por fazer tudo isso por seu amigo, também não escapa, já que abraça a condição de mártir e, na primeira oportunidade de castigar Shylock, decide como ele gastará o seu dinheiro, a quem deixará quando morrer e o obriga a se converter ao cristianismo.

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   Apesar da peça estar classificada como comédia, há inúmeros pontos que podem ser usados para reflexões, o que o torna um texto muito rico (estamos falando de Willie Shakes, né amore?). A lei está do lado de Shylock, mas é esperado que ele perdoe, mas o perdão é dito como uma virtude cristã e aí recomeça o ciclo. O Mercador de Veneza entrou para o meu hall de livros favoritos juntos com outras peças Shakespearianas como Rei LearHamletMacbeth e etc. É uma leitura que vale muito a pena. Obrigado aula de literatura por me apresentar mais um livro espetacular. Fica a dica!

   Essa foi a primeira vez que li uma peça de Shakespeare no original e tive ajuda de um site muito útil chamado SparkNotes que tem o texto no original e o adaptado para o inglês moderno; o que foi muito útil em passagens que eu tive dificuldade de compreender. Também está recheado de artigos e interpretações sobre as peças e isso me ajudou no aprofundamento.

   Uma rápida curiosidade: uma das primeiras resenhas que publiquei aqui no blog foi também sobre uma peça de Shakespeare (Romeu e Julieta) e que ironia ter sido o autor que escolhi para retornar ao blog! Hahaha!

   É muito bom estar de volta e logo tem mais.

   Um beijo do mágico e volte sempre!

tenor

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